quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O INFINITO EM OUTRAS VOLTAS - Capítulo 17



Paula não precisou esperar. Assim que tocou a campainha do apart hotel, Letícia abriu a porta:

- Entra...

Não se tocaram.

Letícia afastou-se para que Paula pudesse passar:

- Senta...

Paula caminhou até um dos sofás e sentou-se. Letícia ofereceu:

- Quer beber alguma coisa? Uísque? Vinho? Cerveja?

Ela recusou com um gesto de cabeça.

- Mesmo?

Dessa vez, o aceno foi positivo.

O nervosismo de Letícia poderia ser medido pelo tamanho da sua insistência:

- Tem certeza?

“Que não deixava de ser encantadora...”

O pensamento fez Paula sorrir...

Letícia sorriu de volta:

- Me desculpa.

Parecia quase tímida.

Pela primeira vez desde que tinha chegado, Paula usou a voz:

- Pelo quê?

O sorriso de Letícia aumentou, se tornou... Intenso... Enquanto ela vencia a distância entre elas rapidamente:

- Por que eu estou...

Suspirou...

Passou a mãos pelos cabelos...

Antes de finalmente olhar para Paula e dizer:

- Sem saber o que falar...

Abaixou, ficou agachada na frente dela:

- E muito menos o que fazer...

Os olhares se encontraram...

Fazendo que as duas tivessem a mesma recordação... Vinte e um anos atrás, quando tinham quatorze anos apenas... Foi Letícia quem a trouxe para o consciente:

- Igual à primeira vez que nos beijamos. Lembra?

Bastou a simples menção, para que a ternura ingênua de então se instaurasse novamente...

- Le... Eu nunca vou esquecer.

Complementares e cúmplices, puxaram a lembrança daquele momento:

- Fazia meses que eu queria...

- Eu tava morrendo de medo...

- Eu não sabia...

- Se você sentia...

Concluíram juntas, com uma sintonia perfeita:

- O mesmo que eu.

E riram...

Achando a cena absolutamente engraçada, quase clichê... Digna de uma comédia romântica água com açúcar onde as personagens trocam de corpo, a não ser... Pelo fato de continuarem ali, sendo genuinamente elas mesmas. Na verdade manifestando uma essência que só parecia existir quando estavam uma com a outra.

O corte veio por parte de Paula. De forma instintiva, numa necessidade imperativa de defesa:

- Faz muito tempo. Uma vida inteira.

A compreensão da rejeição... Para Letícia foi imediata. Nem por isso doeu menos. Levantou antes de dizer:

- Mas não passou.

Afastou-se. Permaneceu de costas para Paula, numa tentativa de fuga impensada e inútil:

- Pra mim, pelo menos.

Uma eternidade...

Foi o que pareceu.

Enquanto Paula levantava e caminhava até ela. Parou a alguns centímetros de Letícia e soprou a própria confissão... Com uma ternura extrema:

- Não passou pra mim também.

A mesma com que Letícia se virou para ela e se aproximou...

Lentamente.

Tocou-a no rosto:

- Paula...

Uma carícia suave, delicada, leve... Mas que fez as duas estremecerem.

No olhar que trocaram.

Foi aonde tudo começou. Tornando fácil... Natural... Inevitável... Bocas, línguas, lábios, mãos e corpos se buscarem... Com uma voracidade intensa e ao mesmo tempo...

Doce.

Tão doce...

Um cuidado apaixonado, como o que tinham tido na primeira vez.

De pé, se acariciando por baixo das roupas que foram abrindo aos poucos, sem tirá-las totalmente... Prolongando, contendo a pressa para que durasse, para que tudo fosse aproveitado de forma plena...

Exploraram uma a outra, provando e aprovando cada mudança, cada diferença... Os seios de Paula um pouco maiores... Os quadris também... As tatuagens de Letícia, uma no ombro e a outra no ventre...

Na forma que se fundiam... As peles ardendo numa ânsia febril, desenfreada e urgente... Os olhos compartilhando uma essência única, profundamente coesa...

Reconheceram-se.

Tornou-se insuportável esperar mais. Sem parar de beijá-la, Letícia sussurrou, num tom baixo, rouco e trêmulo:

- Vem...





Foi o quarto, ou a presença da cama talvez. Marcando de forma real demais, concreta demais... O significado e o peso do que estavam fazendo.

A culpa as tomou inteiramente.

Não saberiam dizer quem parou primeiro, mas a imobilidade aconteceu.

Continuaram juntas. Abraçadas, as testas encostadas, pulsações e respirações ainda alteradas...

E a dificuldade de se afastar idêntica.

- Eu...

Com os dedos nos lábios de Letícia, Paula a interrompeu:

- Não diz nada. Por favor.

Manteve os olhos baixos. Não podia fitá-la, não naquele momento.

Letícia esperou... Olhando para ela... Até Paula se soltar e se afastar:

- É melhor eu ir.

Virou-se e quase correu de volta para sala, ajeitando as roupas no caminho.

Procurou a bolsa...

Continuava no sofá.

“De onde eu também nunca deveria ter saído...”

Tomada de uma fraqueza súbita nas pernas, sentou-se. Pegou um pequeno espelho, arrumou os cabelos, retocou o batom...

Já igualmente vestida, Letícia passou por Paula.

Caminhou direto para o bar, serviu-se de uma dose dupla de Uísque puro, que bebeu com um desespero nítido. Sem encontrar o conforto que precisava no líquido.

Apoiou os cotovelos na bancada, a mão direita ao redor do copo ainda, a esquerda na própria testa, tapando os olhos. De sua garganta escapou um som que, apesar de se assemelhar a um riso, era muito mais um gemido.

Afastando o impulso de ir até ela que sentiu, Paula se manteve o mais longe possível:

- Eu já vou.

Letícia não se moveu. Mantê-la fora de vista era a melhor forma de conseguir dizer o que era preciso:

- Pode ir. Eu tranco a porta depois.





Ao invés de ir para casa, Paula caminhou sem rumo pelas ruas. Quando se deu conta, estava no calçadão. Sentou num banco em frente ao mar, o olhar perdido não na paisagem, mas na imagem fixa que tinha em sua mente.

Letícia.

A vontade de voltar para aquele apartamento era tão intensa que por um instante pensou que se não a atendesse, implodiria... Como na época do nascimento de Yasmine.

A diferença era que agora, a resolução estava próxima, apenas a alguns passos, bastava levantar e ir.

Mas não podia...

Satisfazer o próprio egoísmo sem consequências. Na melhor das hipóteses mentir. Para a mulher que tinha ficado com ela no pior momento de sua vida. Não que se tratasse somente de gratidão.

Amava Natália.

Mas não como amava Letícia.

A primeira era como uma lagoa. Serena, segura e límpida.

Enquanto a outra...

Era a ressaca do mar. Perigosa, irrefreável, intranquila. Difícil, quase impossível não desejar surfar aquelas ondas, não se deixar engolir de bom grado pela maresia...

Mas não podia!

Trair-se, abrir mão da própria integridade em troca de... Algumas horas irresponsáveis de prazer. Sim, pois não passaria disso.

“Aquele flat... Típico matadouro!”

Tentou parar o sentimento, mas foi impossível, então... Permitiu que explodisse:

“Quantas ela já não tinha “abatido” ali?”

Depois riu de si própria...

Com ciúme de Letícia... Que, aliás, continuava sendo... A mesma.

Exatamente por isso era tão difícil... Resistir.

Deixou escapar um suspiro, a ideia de fazer o que realmente queria quase a tomou.

Mas não podia.

Era covarde demais para isso. Sempre tinha sido.





Letícia não ficou muito tempo no flat depois que Paula saiu. Foi direto para a redação. Chegou cedo, faltavam horas para o telejornal ir ao ar, mas precisava ocupar a mente. Focar no trabalho parecia ser a melhor saída.

Não conseguiu.

Ter Paula nos braços novamente... Mesmo que durante aquele único e breve momento... Era suficiente para fazê-la perder o controle, o foco, o próprio eixo...

As lembranças do presente se confundindo com as do passado... O olhar, a voz, a pele, o gosto, o cheiro... As respirações descontroladas... As carícias, os gemidos, os beijos...  Quase podia ouvir a trilha ao fundo... Belle & Sebastian...

Ironicamente, foi o silêncio ao redor dela que fez Letícia se lembrar de onde estava: ao vivo, no meio do jornal, com o jornalista com quem dividia a bancada olhando para ela numa tensão inegável.

Não poderia deixar passar, o erro tinha sido perceptível. Foi de forma muito mais intuitiva do que racional que agiu... Virou-se para o colega e, de um jeito absolutamente bem humorado, disse:

- Eu me distraí aqui, Peruzzo. Fiquei muito envolvida com a última notícia.

Continuou sorrindo... Agora para a câmera:

- Desculpe.

Olhou para o telepronto holográfico na frente dela e começou a ler o texto dando prosseguimento:

- Quem acompanha com mais atenção o noticiário internacional...





Assim que o jornal terminou, o telefone de Letícia tocou. Atendeu com imagem e som:

- Oi, mãe.

Carla perguntou exatamente o que já previa:

- Está tudo bem?

Óbvio que ela - e o país inteiro - tinham visto. Mas a mãe a conhecia bem demais para saber que uma falha dessas não era normal, devia ter algum motivo. Nem tentou desconversar, seria impossível. Apenas deixá-la mais calma:

- Eu estou bem. Fica tranquila.

Ao mesmo tempo, deixou claro no tom que usou que não falaria mais do que isso.





Paula ficou deitada na cama, mantendo a desculpa que tinha dado para sair mais cedo do trabalho e para Natália buscar as filhas na escola sozinha: não estava se sentindo bem.

O que não deixava de ser verdade.

Assim que chegaram, as meninas vieram correndo e pularam em cima dela, enchendo-a de beijos. O carinho, a alegria e a bagunça das filhas contagiou Paula, aninhou uma em cada braço, com um enorme sorriso...

Natália apareceu na porta, olhou para elas e riu:

- Dona galinha e suas pintinhas...

Yasmine e Luna começaram a piar:

- Piu piu piu...

E pediram:

- Faz có có có co, mamãe!

- Faz! Faz!

Riram muito quando Paula as atendeu. Depois Natália fez as duas levantarem, dizendo:

- Agora vamos deixar a mamãe descansar.

Colocou a mão no rosto de Paula numa carícia que também servia para medir a temperatura:

- Como você está, meu amor?

Só pelo tom que usou, Paula sabia que ela estava preocupada. Tratou de tranquilizá-la:

- Bem melhor.

Natália sugeriu:

- Quer que eu te leve no médico? A gente deixa a Yasmine e a Luna nos meus pais.

Paula recusou com o mesmo sorriso terno:

- Não precisa. É só um resfriado.

Sem parecer convencida, muito menos satisfeita - afinal todos os novos vírus, viroses e gripes mais perigosos começavam desse jeito - Natália suspirou:

- Tá, você que sabe... Vou organizar o jantar e colocar a Luna no banho. 

Beijou-a de leve nos lábios e saiu, deixando Paula sozinha com os próprios pensamentos, sentimentos e culpas. Nenhum que fosse capaz de conter a vontade que sentiu...

E seguiu.

Colocou a viseira e acessou o telejornal. Bem a tempo de compartilhar o momento de ausência de Letícia...



CONTINUA NA PRÓXIMA 2a FEIRA...


Para deixar seu comentário acesse:
http://oinfinitoemoutrasvoltas.blogspot.com.br/2014/11/capitulo-17.html


Para ler o Primeiro Capítulo:
http://oinfinitoemoutrasvoltas.blogspot.com.br/2014/09/capitulo-01.html



A fórmula vocês já conhecem, mas só para lembrar: 
- A doação é voluntária, tod@s podem ler, participando ou não.
- Qualquer leitor@ pode fazer a doação no valor de R$ 10,00 ou mais.
- Se atingirmos 200 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 2.000,00, serão postados quatro capítulos por semana.

As doações serão revertidas para os próximos projetos da autora (que são muitos!)

Para colaborar basta clicar no botão abaixo: 








Clique no botão acima para fazer a sua contribuição.



A AUTORA AGRADECE IMENSAMENTE 
A SUA COLABORAÇÃO!



.
OBS IMPORTANTE:   Se preferir fazer a sua contribuição por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com




RECAPITULANDO:

50 cotas   = um capítulo por semana - ATINGIDO
100 cotas = dois capítulos por semana - ATINGIDO
150 cotas  = três capítulos por semana - ATINGIDO
200 cotas = quatro capítulos por semana



postado originalmente em 20 de Novembro de 2014 às 18:00.


Aviso sobre direitos autorais: Copyright © 2014 por Diedra Roiz
Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfictions, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora.  

terça-feira, 11 de novembro de 2014

livro AMA/DOR/A



Patrocínio:



Preço: R$ 30,00 (com frete incluído para todo o Brasil)




ADQUIRA O SEU:






Clique no botão acima para ser direcionad@ a compra.
 

Logotipos de meios de pagamento do PagSeguro






OBS IMPORTANTE : Se preferir fazer a compra por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com





DESCRIÇÃO DO PRODUTO:
Título: AMA/DOR/A
Autora: Diedra Roiz
Ilustrações: Thaís Gliosci
Criação da Capa e Peças Gráficas de Divulgação: Tainá Diniz
Revisão de Texto e Diagramação: Manuela Neves
Assunto: Poesia
Número da edição: 1ª
Número de páginas: 96
ISBN: 978-85-910000-5-0
Formato: 12 x 18 cm
Acabamento: Brochura com orelhas 

Preço: R$ 30,00 ( com frete incluído para todo o Brasil)
Prazo de entrega: 10 dias úteis a partir da confirmação do pagamento feita pelo pagseguro
 


SINOPSE:
AMA/DOR/A é uma coletânea de trinta e nove poesias escritas por Diedra Roiz entre 1993 e 2013. O livro, que conta com as belíssimas ilustrações de Thaís Gliosci, dá voz e visibilidade a uma realidade que ainda é minoria na produção literária: a da mulher como protagonista-narradora-sujeito desejante, portadora da voz, do ponto de vista e do discurso.
           
A apresentação do livro, escrita por Terezinha Manczak, o define como:
“[...] Uma poética que trata de amor (es) urbanos, vividos, moldados na experiência e nas buscas de uma mulher que sabe o que quer. Percebe-se na AMA/DOR/A de Diedra, não a repetida variação sobre o mesmo tema, mas uma unidade - onde o fio condutor de toda a obra não é outra coisa senão a paixão. [...]
 [...] Ao invés de se ocupar em cortar palavras, Diedra se dispõe a cortar a própria carne em oferenda, sem medo de sangrar até sentir-se dominada. Os rasgos não são traços da loucura de palavras vazias - sem sentido - tudo faz sentido, a partir do momento em que a autora diz sem pudores, tudo o que deseja e espera do amor.”

 
BIOGRAFIA DA AUTORA: 
Carioca radicada em Blumenau - Santa Catarina. Praticante do Budismo de Nitiren Daishonin, formada em Direito na UERJ e Artes Cênicas na UNI RIO.
Foi iniciada nos versos na turma de criação poética “Fala Palavra” orientada por Chacal na UERJ em 1993 e 1994.
Além de escritora, é produtora cultural, diretora teatral e atriz.
Teve seu primeiro conto publicado no livro "Olhares Diversos" em 2008. Obteve menção honrosa na categoria conto no 7º Concurso Guemanisse que deu origem ao livro "Literatum & Poeticum"(2009).
Tem três livros publicados: o romance O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS & MEDOS (2009), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o primeiro volume da Coleção Arco Íris, o romance LEGADO DE PAIXÃO (2013).



    

ATENÇÃO - PROMOÇÕES:






ADQUIRA OS SEUS CLICANDO NO BOTÃO ABAIXO:












OBS IMPORTANTE :  Se preferir fazer a compra por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com







ADQUIRA OS SEUS CLICANDO NO BOTÃO ABAIXO:








Clique no botão acima para ser direcionad@ a compra.



OBS IMPORTANTE :   Se preferir fazer a compra por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com







ADQUIRA OS SEUS CLICANDO NO BOTÃO ABAIXO:









            Clique no botão acima para ser direcionad@ a compra.

OBS IMPORTANTE :   Se preferir fazer a compra por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Coleção Arco Íris - segundo livro: AMOR INDOMÁVEL de Wind Rose

Está aberta a pré-venda do segundo título da Coleção Arco-Íris: 


Amor Indomável - de Wind Rose 
O romance de Ravely e Luiza já está disponível ao preço promocional de 45 reais (frete grátis) e exemplar autografado para quem quiser.

Confira no site e garanta o seu: 

.