quarta-feira, 16 de abril de 2014

O INFINITO EM DUAS VOLTAS - Capítulo 10



2013

Saiu do banheiro direto para a sala, encheu um copo de Whisky... Cowboy.

Naquela noite precisava desesperadamente de algo puro e sem gelo.

Sorriu... Amarga... Com o pensamento.

Sheila, a fiel auxiliar doméstica que estava com Júlia há mais de vinte anos, entrou nesse exato momento:

- A Daniela ligou duas vezes. Pediu pra você retornar.

Antes que pudesse pedir, ela trouxe o telefone sem fio, com a habitual competência. Antecipando as necessidades de Júlia, como de hábito. A Júlia coube agradecer:

- Obrigada, Sheila.

Olhou para o copo na mão de Júlia com evidente reprovação. Tinha intimidade suficiente para tanto. Há muito tempo, o vínculo patroa-empregada tinha se transformado em algo muito próximo a amizade. Perguntou:

- Quer comer alguma coisa?

Recusou com uma carinhosa suavidade. A que devia ao saber que a outra era uma das poucas pessoas que realmente se preocupava com ela:

- Não, obrigada.

Sem mais o que fazer, Sheila desejou:

- Boa noite então. Durma bem.

Júlia sorriu... Com plena consciência do quanto aquilo era impossível. Provavelmente passaria em claro a noite inteira.

- Boa noite, Sheila.

Ao contrário dela, sabia que a outra dormiria tranquilamente.

Só depois que Sheila se retirou ligou para Daniela.

- Dani, oi.

Ela estava impaciente e curiosa:

- Tá, fala logo. Não me enrola.

Júlia suspirou:

- O que exatamente você quer saber?

Daniela riu:

- Ah, Júlia, pelo amor de Deus! Preciso mesmo dizer? Acho que não, né? Você sabe muito bem.

Tomou um gole do Whisky antes de dizer:

- Ela veio me ver.

A prima mudou completamente o tom. Sério, mas sem dar o devido peso:

- Vocês conversaram?

Júlia também tentou dar mais leveza a própria voz:

- Sim. No meu camarim depois.

Mas era impossível mentir ou fingir. Só as duas sabiam, na verdade dividiam, a gravidade e a importância que aquela situação continha.

Daniela demorou para perguntar:

- Como ela está?

Júlia não tentou disfarçar. Deixou que a voz expressasse... Toda a melancolia que estava sentindo:

- Muito bem.

Fez uma pausa. Voltou a beber. Só depois completou:

- Casada, com dois filhos.

Não disse mais nada. Nem precisava dizer. A mesma recordação veio ao encontro das duas...

Vinte e cinco anos atrás...

Júlia chorando nos braços da prima... Repetindo mil vezes, tentando se convencer:

- Ela vai ficar muito melhor sem mim. Vai ter o que eu nunca vou poder dar pra ela: um casamento, filhos... Vai ter... A vida perfeita. Vai poder ser realmente feliz.

E Daniela duvidando e questionando:

- Júlia, você tem certeza?

A única resposta era terrivelmente conhecida das duas:

- O que mais eu posso fazer?

Dani ainda insistiu:

- E você?

E Júlia... Respirou fundo... Antes de afirmar, de um jeito que fez Daniela temer:

- Eu tenho a minha carreira.

Foi Daniela quem trouxe Júlia de volta, com uma pergunta que mesclava passado e presente:

- Você está fazendo isso por ela? Ou por você?

Na época, a verdade de Júlia era uma:

- Eu não sei.

Aos 42 anos, tinha mudado completamente:

- Por mim. Eu... Preciso dela.



Quando Carla chegou em casa, Tiago já estava na cama. Como sempre que saía para o habitual “happy hour” com os amigos, tinha voltado cedo.

Inclinou-se e beijou-o de leve nos lábios. Ele perguntou:

- A peça foi boa?

Ela respondeu caminhando em direção ao banheiro:

- Foi sim.

Deixou a porta aberta, como de costume. Ele falou algo que não ouviu. Gritou de dentro do chuveiro:

- O quê?

Ele repetiu, gritando de volta:

- Você nunca me disse...

Tomou fôlego para manter a projeção de voz:

- Que era amiga da Júlia Prantine.

Carla ficou em silêncio. Saiu do banho, se enxugou, passou hidratante na pele... Com a voz dela no ouvido, soprando:

“- Você está linda. Ainda mais do que antes.”

Olhou-se no espelho... Tentando confirmar o que Júlia tinha dito... Não conseguiu enxergar... Apenas lamentou o que, com o tempo, sua imagem tinha perdido...

Ao voltar para o quarto, finalmente respondeu:

- Nunca fomos amigas. Na verdade, eu só a conheci superficialmente.

Assim que se deitou, Tiago se virou para ela... A boca no pescoço, as mãos se enfiando debaixo da camisola, passeando debaixo do tecido... Depois de tantos anos, a vida sexual dos dois estava resumida a uma frequência quase nula, em grande parte por culpa dela. Por crueldade ou ironia do destino, aquela parecia ser uma das noites em que ele queria.

Não alegou dor de cabeça, nem o impediu, sequer resistiu... Correspondeu, incitou, o recebeu e gozou... Como há muito tempo não fazia...

Só quando terminou e, ainda trêmulo e ofegante em cima de Carla, Tiago falou:

- Nossa... Como você tá gostosa, meu amor... Foi... Bom demais...

Carla percebeu e admitiu dolorosamente para si mesma que, exatamente como fazia no início, quando tinham se conhecido... Durante todo o ato... 

Não era nele que o pensamento dela estava.



O dia seguinte começou sem nada de anormal. Carla acordou tarde, almoçou sozinha com Tiago.  Letícia estava na casa da... Amiga. E como era sábado e não tinha aula, Leonardo virava a noite jogando, não acordaria antes das quatro da tarde.

Carla beijou o marido e saiu para encontrar Luciana para o programa semanal com a irmã no salão de beleza. Durante todo o percurso de carro, seus pensamentos se concentraram numa única pessoa: Júlia.

Continuava um pouco surpresa e bastante indignada. Não só com o que tinha escutado dela na véspera, mas... Consigo mesma. Inacreditável que, mesmo depois de tudo, não conseguisse ignorá-la.

Três anos longos e miseráveis tinham se passado até conseguir... Não esquecer, isso nunca tinha sido possível, mas... Perceber e aceitar... A escolha que Júlia tinha feito. E seguir com a própria vida.

Namorar Tiago tinha parecido natural. Cursavam a mesma faculdade de Ciências Contábeis e a delicadeza persistente com que ele a havia cortejado teve o efeito quase mágico de afastar a insegurança, a baixa autoestima e a ausência de amor próprio em que Júlia a tinha deixado.  Além disso, Tiago era indiscutivelmente meigo e, ao mesmo tempo, intenso e apaixonado. Um amante carinhoso, paciente e gentil. Sensível. Como Carla precisava.

Ainda assim, Carla sempre se questionaria... Nunca poderia afirmar com certeza... Se teria se casado com ele se não tivesse engravidado de Leonardo.

Respirou fundo e afastou todos aqueles pensamentos, colocando-os de volta aonde sempre tinham estado durante aquele um quarto de século: enterrados.



Quando chegou ao salão, Luciana já tinha chegado. Estranhou:

- As meninas não vieram?

A irmã voltou a folhear a revista que segurava:

- Foram ontem passar o final de semana com os pais.

Carla riu, divertida com a forma de Luciana falar, por que... Para muitos que ouvissem, a interpretação seria: o pai das sobrinhas era casado com outro homem. Quando, na verdade, o que ela queria dizer era somente: as três não eram filhas do mesmo pai.

Luciana não perguntou sobre Letícia. Ela nunca ia com elas ao salão. Também tinha uma inexplicável aversão pelas primas. Não se davam.

Isso sempre fazia Carla pensar em Júlia e Daniela, que tinham acabado se tornando amigas. Cultivava a esperança de que um dia pudesse acontecer o mesmo com as sobrinhas e a filha...

Lamentou não ter perguntado como Daniela estava. O fim do colégio, o ingresso em faculdades diferentes, a tentativa de esquecer Júlia... Tinham contribuído para que Carla se afastasse da amiga, até perderem completamente o contato.

Só então se deu conta de que estava mais uma vez pensando em Júlia... Decidida a não se irritar nem continuar naquela viagem inútil ao passado, evitou folhear as revistas de fofocas sobre novelas repletas de fotos... Dela. 

Virou-se para conversar com a irmã... No exato momento em que ela era questionada por uma das cabeleireiras:

- Já sabe como vai querer cortar?

A resposta de Luciana não foi nada fora do normal:

- Igual ao da Júlia Prantine nessa novela.

Carla até já estava acostumada, mas dessa vez não teve como deixar de pensar: “eu mereço...”.



As unhas das mãos ainda estavam secando e tinha um dos pés em cima do joelho da manicure, quando o celular começou a tocar. Temendo que fosse alguma coisa com um dos filhos, Carla pediu para a funcionária que estava de pé ao seu lado:

- Você poderia pegar meu celular na minha bolsa, por favor?

A jovem a atendeu de forma atenciosa:

- Quer que eu atenda para a senhora?

- Não, você só...

Fez um gesto sobre a palma da mão... O dedo indicador arrastando na tela... Um tipo de coordenação que ainda lhe parecia difícil e por vezes lhe tomava bastante tempo. Mais fácil pedir para aquela jovem, que provavelmente nunca tinha tido um celular com teclas, muito menos discado um telefone...

- E me entrega?

Manteve o celular contra o ouvido com dificuldade, sem dobrar os dedos:

- Alô?

Esperando tudo, menos a voz suave do outro lado:

- Carla? Sou eu... Júlia.

A primeira reação de Carla foi um arrepio:

- Como você conseguiu esse número?

Soube que Júlia sorriu... Pelo jeito que ela falou:

- Liguei pra sua casa e... Acho que foi a sua filha que me atendeu.

Não perdeu tempo perguntando como ela tinha conseguido o primeiro número. Era Júlia Prantine. Devia ter os seus meios...

- Certo.

Luciana gesticulou ao lado de Carla, perguntando: “quem é”?

Sacudiu a cabeça de um lado para o outro, respondendo da mesma maneira muda: “ninguém”.

Foi Júlia quem quebrou o silêncio. A voz dela soando... Inesperadamente insegura do outro lado da linha:

- Será que eu... Liguei em uma má hora?

Carla pesou aquela resposta. Racionalmente não queria, sabia que não deveria ser receptiva. Na verdade, qualquer tipo de emoção só denunciaria que, de alguma forma, Júlia ainda a atingia. Acabou usando um tom gentil:

- É, pode-se dizer que sim.

Dessa vez, Júlia falou de forma quase formal. Educada e polida:

- Desculpe, eu não vou me alongar então.

Houve uma pausa, onde o tempo da respiração dela mudou, o tom se tornou... Mais lento e profundo... Deliciosamente doce e... Íntimo...

- Eu só liguei pra te agradecer... E pra te dizer o quanto foi importante pra mim... Você ter vindo...

Mantendo a mesma estratégia, Carla não foi grosseira. Apenas neutra:

- Tudo bem.

Exatamente o oposto da confusão que estava sentindo... Só piorou quando Júlia informou, de um jeito sugestivo:

- Esse é o número do meu celular pessoal. Você pode me ligar, a hora que quiser. Só eu atendo e está sempre comigo.


CONTINUA NA PRÓXIMA 2a FEIRA...  


A fórmula vocês já conhecem, mas só para lembrar:  
- Qualquer leitora pode fazer a doação no valor de R$ 10,00 ou mais.
- Se atingirmos 100 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.000,00, serão liberados dois capítulos por semana.
- Ao atingir 150 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.500,00, serão postados três capítulos por semana. 



As doações serão revertidas para os próximos projetos da autora (que são muitos!)

Para colaborar basta clicar no botão abaixo: 







Clique no botão acima para fazer a sua contribuição.



A AUTORA AGRADECE IMENSAMENTE 
A SUA COLABORAÇÃO!



.
OBS IMPORTANTE:   Se preferir fazer a sua contribuição por transferência bancária ou depósito na conta das autoras, enviar email para: diedraroiz@gmail.com




RECAPITULANDO:

50 cotas = ATINGIDO
100 cotas = ATINGIDO
150 cotas = três por semana


Músicas que inspiraram  o capítulo: 
https://www.youtube.com/watch?v=7sqbzrZxrrk 
https://www.youtube.com/watch?v=5KOJJlO2OsU





Para deixar seu comentário acesse:
http://www.oinfinitoemduasvoltas.blogspot.com.br/2014/04/capitulo-10.html

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CITAÇÃO DO DIA

"Será que não precisamos inventar uma subjetividade que possa lidar com o estranhamento, produzir estratégias e táticas em que as diferenças façam parte da experiência, e não o mesmo, o igual, a repetição?
Será que podemos tolerar, e mesmo experimentar, o sentimento de orfandade que advém da perda das certezas, da vertigem produzida pelas rupturas nos modelos preestabelecidos, do embate com a realidade que é turbulência, perturbação, desordem, convívio com  diferença, num equilíbrio sempre provisório, móvel, multifacetado, complexo?"
(Marisa Faermann Eizirik - "DIFERENÇA E EXCLUSÃO ou ... a gestação de uma mentalidade inclusiva")

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

ORANGE IS SOMETHING TO FORGET ou UMA EDINEUZA ALEX DE ANIVERSÁRIO PARA CARLA de WIND ROSE


AS AVENTURAS DE EDINEUZA 
de WIND ROSE


Episódio 04:  
ORANGE IS SOMETHING TO FORGET
ou 
UMA EDINEUZA ALEX DE ANIVERSÁRIO PARA CARLA

Aeroporto lotado, ar condicionado fraco, vôo atrasado...

De um lado do vidro... Paciência. Do outro... Pressa.

Ela correu, equilibrando-se no salto 12 e puxou a micro saia para baixo, para conseguir ficar perto da esteira. A mulher com o carrinho lotado olhou-a com censura... Mas, balançou os cabelos quase vermelhos e deu de ombros...

- Essa é minha!

Gritou para o homem que fez menção de pegar sua mala vermelha. Com sacrifício tirou-a da esteira... Depois uma menor, também vermelha. Outra um pouco menor... Igualmente vermelha. Por fim, outra bem menor... Vermelha.

Colocou tudo no carrinho, a mulher ainda olhando-a com a mesma censura... Limitou-se a sorrir para ela e disse:

- Essas viagens ao exterior... Sempre volto lotada de compras.

A mulher balançou a cabeça e conseguiu aproximar-se da esteira.

Assim que passou pela porta de vidro ouviu uma voz conhecida:

- Edineuza!!!

Olhou em direção a voz:

- Janaina! Sua louca, porque não disse que viria?

Abraçaram-se...

O guarda com um sinal solicitou que elas desobstruíssem a porta.

- Você pediu que eu viesse, esqueceu?

Edineuza olhou para o lado e disfarçou:

- Fala baixo...

Janaina estranhou, mas não perguntou. Quando se afastaram Edineuza explicou:

- Está vendo aquela loura ali... Ali na fila do táxi.

Edineuza disfarçou sorrindo em direção a loura que retribuiu de forma contida e logo entrou no táxi.

- Aquela gata? Que tem?

Edineuza respondeu enquanto empurrava o carrinho:

- Falei que vinha a trabalho e que estaria sozinha na cidade, se ela quisesse poderíamos conhecer melhor a cidade... Entendeu né, Janaina?

- Entendi, estava tentando pegar a loura... Mas pelo jeito não deu né?

Sentenciou enquanto colocava as malas de Edineuza no Fiat Uno.

- Não. Você atrapalhou.

- Eu?

Riram no caminho em direção a casa de Edineuza.

Abriram as malas e ao poucos a sala foi ficando abarrotada de mercadorias. Roupas, bolsas, calçados. Edineuza retirava da mala e Janaina com um papel conferia a relação das encomendas.

- Estas viagens ao exterior me deixam cansada, tô precisando relaxar sabe?

- Exterior, Edineuza? Tu fala como se fosse Nova York... Tu vai ali no Paraguai.

- Não deixa de ser exterior... Eles falam outra língua.

Janaina ria enquanto separava as roupas que iriam para a feirinha. Ouvia os relatos de Edineuza sobre as aventuras nas ruas do Paraguai, de loja em loja.

- Edineuza, tenho uma parada muito boa pra gente, topa?

- Nem vem, Janaina, tuas paradas só me colocam em roubada.

- Essa é boa... Quer ouvir?

Sem paciência Edineuza respondeu:

- A tua última parada me rendeu uma orgia de bonecas infláveis... Tô até aqui ó... – Mostrou a testa... - De soprar buceta.

Janaina riu do jeito que ela descreveu a forma que demonstrava o produto.

- Desta vez é quente... Quero dizer, não que a anterior não fosse, afinal soprar buce...

- Chega, Janaina, fala logo!

- Tenho uma amiga que namora a faxineira da dona da loja de sex shop daquele shopping que sempre vamos, aquela loja da esquina...

- Eu sei qual é a loja, e daí?

- Pois então... Ela disse que a namorada ouviu a mulher, a dona da loja, no telefone dizendo que precisava contratar duas mulheres para fazer um pequeno show na festa de aniversário da mulher dela e...?

- Nossa! Essa gente é tudo sapata?

- Credo, Edineuza! Se tu que é fala assim, o que esperar dos outros...

- Eu não sou sapata! Sou bi. Já te disse.

- Bi?

Janaina caiu na gargalhada e falou no meio do riso:

- Biiii... Scate. Deixa pra lá... Quer ser Bi seja, não interessa...

Edineuza interrompeu sem paciência:

- Então, o que essas sapa... Digo mulheres lésbicas querem contratar afinal?

- Bem, é essa a questão... Não sabemos, mas estávamos pensando se tu... Bem, fosse lá e dissesse assim que tem uma empresa de shows, desse tipo assim sabe... Com esse teu jeitinho assim de...

- Puta?

Edineuza interrompeu furiosa, Janaina tentou consertar:

- Não falei isso... De... Atriz, de dançarina... Talvez a gente consiga esse trampo e pode dá uma boa grana.

- Tá e vamos dançar o que? A dança da garrafa? Por que é só isso que tu sabe.

- Não. Eu sei muitas outras, mas claro que tu não sabe disso, afinal, não tenho interesse nenhum de dançar pra ti.

- Ainda bem, eu tenho até medo de imaginar.

Falou rindo, mas Janaina interrompeu séria:

- Tá. Topa ou não?

- Eu topo, mas não vou falar com ninguém. Vai você e o que ela quiser, a gente faz.

- Jura?

- Tenho medo disso, mas tá... Eu juro. Mas a grana tem que ser boa.

Dois dias depois, Janaina bateu na porta de Edineuza e entrou com um enorme pacote nas mãos.

- Que isso?

- Nossa roupa para o show no sábado.

- Como?... Que show, que roupa?... Que sábado?

Janaina colocou as duas mãos na cintura e balançou o pé:

- Já esqueceu? Temos uma apresentação no aniversário da dona do sex shop, no sábado?

Edineuza se jogou no sofá.

- Não acredito, vamos fazer isso?

- Vamos sim. Por cinquinho...

Edineuza parou por instantes e ficou de pé, aproximou-se de Janaina, perguntou:

- Quanto?

- Isso que tu ouviu... Cinco milzinho...

Edineuza deu um grito e segurou nas mãos de Janaina, que fez o mesmo... Começaram a dançar rodando na sala e repetindo:

- Cinquinho... Cinquinho... Cinquinho...

Pararam e Janaina falou rindo:

- Dois pra ti e três pra mim.

Edineuza olhou seria para ela:

- Como assim? Por que tu vai ganhar mais?

- Por que eu fui lá fechar, só por isso. Eu vendi e é assim que funciona, quem vende ganha mais.

Edineuza ficou séria olhando para ela e respondeu:

- Cafetina...

- É pegar ou largar... Se não quiser pego outra.

- Te enxerga, Janaina, quem pagaria esse mico contigo? Só eu.

Janaina sorriu e respondeu com ar de negociadora:

- Por isso escolhi você. É perfeita. Topa?

- Por dois e trezentos.

- Fechado.

Foi até os pacotes e começou a abrir, entregou um para Edineuza e enquanto abria explicava:

- Ela quer uma performance sobre uma série nova que tá rolando aí.

Edineuza abriu o pacote e estranhou a roupa... Um macacão laranja:

- Que isso, Janaina? Que série é essa? Abóboras famintas? As loucas do macacão laranja? As taradas de laranja?

Janaina ria dos nomes que Edineuza dava, levantou, colocou o macacão na frente e falou de forma solene:

- Orange is The New Black.

Edineuza olhou o macacão fez o mesmo que ela, colocou na frente e foi até o espelho:

- É algo sobre mecânico de automóvel? Que coisa mais sem... Nada...

Janaina foi até ela e com um movimento abriu a abertura de velcro na frente, olhou para Edineuza e esperou uma reação:

- Era pra dar tesão?

- Credo, Edineuza, usa sua imaginação. Mas é claro que tem que saber do que se trata. É um presídio.

- Quê?

Janaina, sem paciência de explicar em detalhes, falou de forma resumida do que se tratava a série, depois do relato de Janaina, Edineuza perguntou:

- E o que elas querem... Apanhar? Ser algemadas? Pra isso basta dar uma volta aqui na minha rua depois da meia noite.

- Elas querem que criemos algo a partir dessas personagens. Qualquer coisa, na verdade a mulher dela quer ver de perto, entendeu?

Janaina mostrou as perucas e outros adereços que deveriam usar. Edineuza pegou uma peruca e colocou... Janaina interrompeu:

- Não. A sua é essa.

Edineuza colocou e foi até o espelho... Se olhou, de frente, de lado... Olhou para Janaina e disse:

- Acho que posso fazer.

No sábado a noite, chegaram cedo ao endereço indicado, entraram pelos fundos... Uma mulher abriu a porta e indicou onde elas poderiam ficar e se arrumar até a hora da performance. No quarto que estavam tinha um balde de gelo com duas garrafas de vinho branco e algumas frutas. Sem a menor cerimônia, Edineuza pegou as taças e encheu-as... Ofereceu uma a Janaina que de forma apreensiva falou:

- Será que está certo beber antes?

Edineuza levou a taça aos lábios e secou-a, depois respondeu:

- Ora e porque não? Já está tudo ensaiado... E bebe porque ajuda a dar coragem.

Enquanto falava enchia mais uma taça. Bebeu da mesma forma.

Começaram a se vestir...

Macacão laranja... Edineuza pegou a peruca destinada a ela... Cabelos negros lisos, um óculos com armação também escura... Uma tatuagem de rosas vermelhas no braço... Olhou-se no espelho...

- Essa eu pegaria também...

Olhou para Janaina e esperou ela arrumar a peruca loura.

Mais alguns retoques, mais algumas taças de vinho, muitas risadas e estavam prontas.

Uma hora e meia depois, quando vieram buscá-las, estavam rindo descontroladamente e as garrafas vazias dentro do balde. Tentaram conter-se até chegarem ao salão onde ocorria a festa...

- Edineuza, a tatuagem tá do lado errado, é no outro braço.

- Puta merda...

Edineuza arrancou e colou-a do outro lado... De cabeça para baixo.

As portas abriram e.... Nada...

Edineuza ouvia os sussurros e risos contidos ao longe e que vinham de dentro da sala, olhou para Janaina e a empurrou para dentro, quase a derrubando e arrancando algumas risadas da plateia. Caminhou atrás tentando não cair nem tropeçar nas próprias pernas... Percebeu que estava bêbada.

- Isso não tava no ensaio...

Janaina falou baixinho quando ficou de frente para ela.

Olharam-se e naquele momento Edineuza já não sabia mais o que fazer... Passaram-se alguns minutos assim e para surpresa de Edineuza... Janaina começou a chorar. Edineuza se desesperou segurou seu rosto entre as mãos... Falou somente para ela ouvir, próximo ao seu ouvido.

- Agora não é hora de piti... Olha em volta, tá valendo cinquinho lembra?

Janaina chorou mais alto ainda e falou no meio do choro, só Edineuza ouviu:

- Não lembro de nada...

Edineuza olhou para as mulheres em volta, que por sua vez as olhavam com ar desolado... Acreditando na cena, dentro da cena. Não teve escolha, improvisou:

- Piper, olha para mim...

Janaina com os olhos arregalados encarou-a:

- Eu?

- Lá fora conversaremos, mas aqui dentro preciso de você... Sou eu, Alex.

Janaina Piper ficou mais assustada ainda... Edineuza Alex aproximou os lábios e beijou-a.

Todo mundo aplaudiu... Afastaram-se e Edineuza Alex apontou a plateia para Janaina Piper e disse:

- Está vendo estas mulheres...

Janaina Piper olhou-as com os olhos vermelhos, balançou a cabeça negativamente e chorosa, mas Edineuza Alex tinha a situação sobre controle e falou alto:

- Estão aqui por você!

Algumas mulheres da plateia responderam:

- Não! Por ela não!

- Por você, Alex... Gostosa!

- Queremos você!

Edineuza Alex sorriu sem graça... Janaina Piper colocou as duas mãos no rosto e mais uma vez caiu no choro.

- A aniversariante, onde está?

Perguntou Edineuza Alex de forma segura e esperou que alguém a indicasse. Olhou para a mulher que apontaram e puxou Janaina Piper atrás de si, tentando não tropeçar em nada nem ninguém. Ao passar pelas mulheres ouvia os comentários:

- Elas estão perfeitas... É igual a Alex...

Outra falou...

- A Piper é assim mesmo, uma tonta...

Edineuza Alex preferia que Janaina não tivesse ouvido... Mas pelo choro, ouviu.

Aproximaram-se da aniversariante, uma mulher alta, morena, cabelos presos... Linda. Ao lado dela outra segurando-a pela mão, sorria também, foi esta quem falou:

- Queríamos te fazer uma surpresa trazendo as duas.

- Adorei, amor.

Edineuza Alex já não sabia mais o que tinha que fazer, mas chegou bem perto delas, pensou em uma frase de efeito, pensou que precisa dizer algo, então perguntou para a aniversariante a única coisa que conseguiu formular... Mas  com uma voz rouca, quase gutural:

- Gosta de presidiárias?

A mulher sorriu e respondeu emocionada:

- Não! Só Gosto de você.

Edineuza Alex soltou a mão de Janaina Piper que agora falava com outra mulher ao lado alguma coisa inaudível, mas a mulher ria muito e Janaina Piper chorava tentando deitar a cabeça no ombro da mulher... Edineuza Alex aproximou-se mais da aniversariante, passou as mãos suavemente em seus braços subindo em direção aos ombros e perguntou da mesma forma que antes:

- Quer conhecer a minha cela?

A mulher adorou, pois gemeu alto e todas riram... Edineuza Alex segurou-a pela cintura, passou o nariz no pescoço da mulher, cheirou-a... Ficou excitada. Percebeu pelas risadas que estava agradando, sua embriaguez naquele momento era um ponto a favor, pois nada incomodava, nem os berros de Janaina Piper.

Quando Edineuza Alex tentou passar a mão na perna da mulher, ela afastou sorrindo...

- Não... Eu não.

Edineuza Alex não entendeu... A mulher explicou o que queria.

- Queremos ver você fazer aquela lourinha, ansiamos por isso...

Edineuza Alex teve um acesso de tosse, soltou a mulher e olhou para Janaina Piper que estava sendo empurrada em direção a ela com os olhos vermelhos... Inchada.

- Jesus... Não foi isso que ensaiamos...

Falou para si mesma, mas na verdade nem lembrava mais o que tinham ensaiado. Mas olhar para Janaina, agora Piper, assim, tão frágil, descabelada, loura, presa, laranja... Deu uma vontade louca de acalmá-la e acabar com o seu pranto... Levantou a mão e esperou que Janaina Piper a pegasse... Puxou a para si e segurou-a num beijo cenográfico... As mulheres aplaudiram... Foram ao delírio.

O beijo foi se tornando mais intenso e as mãos acompanharam o ritmo frenético das palmas, do desejo... Afastou-a e num movimento rápido abriu o velcro do macacão laranja levando as mulheres ao frenesi...

Janaina Piper gritou de susto ou tesão... Não tinham programado isso, era o macacão de Edineuza Alex que deveria ser aberto... Janaina Piper estava nua por baixo do macacão... O Olhar de Edineuza Alex para ela era de desejo... Foi até ela e cobriu com seu corpo o peito nu, beijando-a novamente, porém com carinho, com delicadeza... Passou as mãos pelos cabelos... E afastaram-se olhando intensamente.

As palmas forma intensas...

Elas ainda se olhavam, algumas se aproximavam diziam coisas, parabenizavam... Foram levadas até o quarto novamente e lá...

Embriagadas de si mesmas se desnudaram de Alex e Piper e se pegaram no tapete sobre os macacões laranja.

Edineuza acordou primeiro... Olhou para o lado e viu Janaina, nua ao seu lado... A única coisa que veio em sua mente:

- Puta que pariu! Oh, macacão do inferno!

  FIM

Menin@s Lind@s e Maravilhos@s,
Tudo bem?
Hoje é um dia SUPER ESPECIAL, nada mais nada menos do que o aniversário da nossa amada betíssima, ó poderosa salve salve CARLA GENTIL!
Sim, a Carlinha, para quem não sabe, é minha beta desde que comecei a escrever na internet, antes mesmo de eu ter conhecido a Wind Rose. 
(Aliás... foi ela que nos apresentou... Ou seja: minha gratidão eterna! )
Carla Gentil me atura faça dia ou faça sol, com minha loucura obsessiva de mudar uma linha, uma frase, ou todo o capítulo não uma, mas... Qual é o meu record, Carla? Oito vezes? Mais, né?
Eu encho a caixa de mensagem do email dessa coitada diariamente há sete anos e ultimamente, ainda posto fotos de "procurada" no mural do face dela...
Por isso e muitas outras coisas mais... Ela merece o céu!
Como não posso canonizá-la, nem levá-la ao céu de formas mais carnais por motivos vários (estou sossegada e muito bem casada, amiga pra mim é homem, etc.) ...
Ela pediu e nós atendemos... Peguei meu chicotinho e delicadamente solicitei à minha digníssima e phodástica Wind Rose para escrever essa pérola, que une duas preferências da Carla: Edineuza e Alex...
Esperamos que vc goste do presente, Carlinha!
AMAMOS MUITO VC!!!
PARABÉNS!!!
FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
Toda a felicidade de todos os Universos - os que já existem e os que ainda vamos criar - pra vc, Carla Gentil!!!
OBS FINAL: Aha! Uhu! Oh, Carla eu vou comer teu bolo! kkk
Di e Wind