sexta-feira, 10 de abril de 2015

PEQUENO DICIONÁRIO DO SEXO LÉSBICO - Parte 6


Papéis Sexuais – Comportamento sexual da pessoa em uma relação sexual.

Assunto polêmico, no mínimo.

Porque mesmo entre casais heteros, tudo é relativo.

Mas vamos nos ater a nós, lésbicas. Nesse caso, a rotina nunca precisa ser encontrada, não é mesmo? Pensem na vantagem que é as duas terem condições de fazer os dois papéis. Variar é tão bom…

Ok, ok. Vamos combinar que nem todas jogam igualmente bem no ataque e na defesa. Nem todas nasceram para artilheiras? Ah, eu ainda acho que querer é poder! Desafiem seus limites, abram as cabeças!

Brincadeiras à parte, como lidar com esses rótulos pré-estabelecidos?

Existe mesmo essa coisa de Ativa e Passiva? E as assexuadas? E as vouyers? E as ecléticas? E as versáteis / relativas?

Primeiro precisamos estabelecer alguns princípios básicos:

Quando nascemos, somos classificadas segundo nossos genitais. O médico olha e fala:

- É menina.

Escrevem lá na nossa certidão de nascimento: sexo feminino.
Em primeira instância, a rotulação de gênero se dá com base nos órgãos reprodutivos internos e genitais. Ou seja: tem vagina, é mulher. Tem pênis, é homem. Infelizmente, ainda tem quem pense deste jeito. 

Tinha um amigo meu que adorava frisar:

- Aqueles que na carteira de identidade forem do sexo masculino…

Ele tinha razão, por que… Muito além do jardim, existem outras cositas mais. Nada é tão simples assim.

Dentro de cada uma de nós há uma expressão interior, de foro íntimo, do senso pessoal de pertinência a um dos sexos. É a Identidade de gênero.

E nem sempre a identidade de gênero de uma pessoa é igual ao gênero sob o qual ela é classificada socialmente. Da mesma forma, identidade de gênero e orientação sexual não é a mesma coisa.

Por isso quando minha irmã estava grávida e perguntavam:

- É menino ou menina?

Respondia algo que me fazia gargalhar:

- Quando o bebê crescer vai decidir.

Imaginem as reações apavoradas que ela conseguia causar.

Além do Gênero e da Identidade de Gênero temos a Expressão de gênero.

O que diabos é isso? É a expressão externa da identidade de gênero de uma pessoa. Como ela se veste, age, fala etc. Características corporais “masculinas” ou “femininas”.

Também não é vinculada à orientação sexual.

Ou seja: a identidade de gênero é interna (o que se é) e a expressão de gênero é externa (o que se mostra).

Lembrando que: existem travestis, mulheres cisgênero e mulheres transexuais que expressam o seu gênero de forma neutra ou mais masculinizada. Isso não as torna menos mulheres do que outras que optam por expressar a sua feminilidade de forma padrão.

Ao contrário do que muita gente pensa, a Expressão de gênero também pouco ou nada tem a ver com Papel Sexual.

Como assim?

É isso mesmo. Assim como uma mulher pode ser muito masculina e não ser lésbica, uma lésbica pode ser totalmente masculina e ser passiva na cama. E vice-versa.

Ou seja: não julgue pelas aparências, pois… As aparências enganam!

Além disso: há mulheres que realizam o que crossdresseres já realizam há muito tempo, se vestem com roupas masculinas independente de sua orientação sexual e as andróginas, que misturam características físicas e comportamentais dos dois sexos, sem necessariamente serem lésbicas.

A cada dia surgem mais classificações, subclassificações, diferentes e inusitados comportamentos, por que… Não existe padrão para o ser humano, a verdade é essa.

Os Papéis Sexuais, de “masculino” e “feminino”, “ativa” e “passiva” são convenções. Grilhões de uma sociedade e uma cultura ocidental profundamente maniqueísta e repressora, não devem nem podem ser utilizados para caracterizar ninguém.

O equilíbrio só é atingido quando compreendemos e aceitamos que uma coisa não existe sem a outra. Todas as forças aparentemente contrárias (bem/mal, claro/escuro, certo/errado, masculino/feminino) na verdade são complementares. Existem dentro de todas nós e juntas formam o todo.

Por isso não adianta querer rotular: Ativa ou Passiva?

Na vida, nunca somos. Estamos. E estados são tudo menos imutáveis. É preciso se saber dançar conforme a música. Não se rotular, muito menos se castrar, deixar de fazer algo por que:

- Não sou butch.

- Não sou mulherzinha.

- Lésbicas não fazem isso.

Quem é que dita isso?

Gostamos de criar limites, parâmetros, defesas à nossa volta. Tudo bem, quem não entende? Precisamos de paredes, objetos, pertences, propriedades privadas, vidros nas janelas. Estes trazem uma falsa sensação de segurança e conforto, como em um útero. Nada de mal nisso. A não ser que te impeça de avançar, que acabe se tornando uma carga, um portão de cela de prisão que se fecha e te separa de quem você realmente é.

Existe algo de fera.

Existe algo de Quimera.

Existem forças, vontades e desejos que negamos, sequer cogitamos aceitar em nós.

É preciso não ter medo. Abrir bem os olhos e nos fitar, por que… Por pior que possa parecer, somos nós.

Masculina, feminina, assexuada, andrógina, lésbica, bi, hetero, pansexual, ativa, passiva, relativa…

O que realmente importa? Estar bem resolvida!

Se você se olha no espelho e se acha maravilhosa, está feliz assim, tá perfeito!

Importante é aprender a amar e a viver com o que nós e as outras pessoas somos sem distinção de peso, raça, cor, idade, gênero, orientação sexual, papel sexual ou qualquer outra rotulação.

Somos todos iguais em nossas diferenças.

E viva a diversidade!






Penetração – Tem quem não goste. Tem quem não chegue ao orgasmo desse jeito. Tem quem nem permita que aconteça.

Talvez por no dicionário penetração ser assim definida: “consiste no ato sexual de inocular o pênis dentro do canal vaginal feminino, nos casos de sexo vaginal, e inserido no epicentro anal do parceiro, nos casos de sexo anal.”

Ou porque o conceito de orgasmo de natureza vaginal veio de Freud, que afirmava que o orgasmo clitoriano era um fenômeno que ocorria em adolescentes, e após atingir a puberdade a resposta adequada das mulheres maduras mudava para o orgasmo vaginal com a penetração.

Ou seja: ou faz a pessoa pensar em pênis ou ajuda na teoria de que lésbicas são mulheres com a sexualidade infantilizada que ainda não encontraram o homem certo, por preferirem orgasmos clitorianos a vaginais (diz a lenda que para se ser lésbicas não se pode gostar de penetração).

Já discutimos um pouco esse assunto na parte 1, no item Dildo, lembram?

Porém, vamos prosseguir sem dedos. Ou para quem preferir: com – cada uma escolhe quantos – gosto não se discute, não é mesmo?

Pequeno parêntese:


Penetração com os dedos – ou “dedada”. O próprio nome está dizendo. Despensa maiores explicações.


Penetração com Dildo – ver em Dildo, na Parte Um.


Fist Fucking – inserção da mão ou antebraço na vagina ou no ânus.  Depoimentos de praticantes desta atividade afirmam que o prazer da sua realização está em aprender a apreciar as sensações que são proporcionadas pela distensão do ânus, da vagina ou de ambos.


Mas voltando: até a mais insensível das mulheres sente prazer com penetração. Não adianta dizer que não. Quando bem feito então…

É físico! Biológico! As terminações nervosas na parte interna da vagina proporcionam esse prazer. É por isso que muitas mulheres lésbicas gostam sim que suas parceiras a penetrem com os dedos.

Isso não as faz serem menos lésbicas, muito menos suspeitas. Precisamos parar com esse tipo de paranoia.

Essa história de “falsa lésbica”, sinceramente, é uma grande besteira.

Será possível que não se pode curtir – muito e sempre! – os dedos mágicos da parceira, namorada ou esposa sem que se questione:

- Ela gosta demais de penetração, será falta de pênis?

Preconceitos idiotas, não devemos dar ouvidos a eles.

Gostar ou não de sexo oral, vaginal, anal, com dildos, vibradores, dedos ou pênis não determina a orientação sexual de ninguém.

Muita gente pensa que sexo lésbico se limita a sexo oral e esfregação. Chegam a perguntar:

- Mas o que vocês fazem? Não entendo!

Que falta de imaginação!

Tem quem morra sem conhecer o poder de um dedo indicador, de um dedo médio ou de uma mão inteira… Só lamento!

A natureza foi generosa com as mulheres. Com as lésbicas principalmente. Podemos fazer de tudo e mais um pouco na cama.

Um exemplo? Penetração simultânea. Os dedos das duas, ao mesmo tempo…

Deixar-se penetrar pela parceira é um ato de entrega. Para muitas mulheres, entregar-se desta forma significa confiança, carinho, cumplicidade e intimidade. Amor mesmo.

Mas e se você não gosta ou se sua parceira não gosta? Tudo bem. Sem problemas.

Em se tratando de sexo, nada é regra. Nem mesmo a penetração.

Repito: gosto não se discute, cada um tem o seu.

Ninguém precisa provar nada, muito menos na cama. As coisas fluem naturalmente.

O importante é as duas estarem de acordo e sentirem prazer. As formas são inúmeras, não é mesmo?

Ser penetrada por uma mulher, com os dedos ou com acessórios sexuais, é absolutamente diferente de ter relações sexuais com um homem.


“Malu confessou, sem parar de soluçar:
- Eu… Eu tô confusa… Sempre tive certeza de que gostava de mulheres, mas… Agora eu não sei mais, por que… Eu… Gostei tanto… Quando ela…
Kiko respirou fundo antes de interromper, impaciente, irritado, quase furioso:
- Minha nossa senhora da repressão sexual, Malu! Só porque a sua namorada te comeu com um pau e você gostou, não quer dizer que você é menos lésbica, sabe? Ah, por favor!” (“Simples como o Amor” – Diedra Roiz)


Da mesma forma, ter relações sexuais com travestis ou mulheres trans é absolutamente diferente de ter relações sexuais com um homem.

Vamos abrir as mentes?

Um pequeno exercício: você se depara com uma mulher absolutamente deliciosa e linda. Maravilhosa, poderosa, fantástica, tudo de bom, PER-FEI-TA!

Imaginou?

Pois agora eu te dizer duas coisas:

1) A gata é lésbica, também gosta de mulheres e está solteira.

Qual é a sua primeira reação?


2) A gata é uma travesti, ou a gata é uma mulher trans.

Qual é a sua primeira reação?


Sejamos francas.

Isso faz diferença pra você?


Para quem respondeu não: Parabéns! Você arrasou! Seu desejo não está ligado a preconceitos.


Para quem respondeu talvez: Qual é a sua dúvida? O ponto que te trava?

São os outros? O que vão pensar? Vai se frustrar, deixar de fazer o que quer por causa deles?

Vai chegar junto primeiro para ver qual é? Super válido! Vai que não bate, né? Mas se bater… Caia dentro, por que… O que importa é ser feliz!

Medo? Natural. Quem nunca? O que não conhecemos assusta mesmo, mas… Para tudo existe uma primeira vez. Só precisamos de um pouco de coragem para não negar nossos verdadeiros desejos.


Para quem respondeu sim: Por que faz diferença? Você se interessou, ficou super atraída, apaixonada pela gata gostosa, o que mudou ao saber que ela era uma travesti ou uma mulher transexual?


O que faz alguém ser homem ou mulher não é o fato de ter nascido em um corpo feminino ou em um corpo masculino, muito menos ter ou não ter um pênis. Existem homens que não têm pênis e existem mulheres que têm pênis. Existem homens que têm vagina e existem mulheres que não têm vagina.

Não é um bicho de sete cabeças.

Ou é?

O que faz alguém ser lésbica?

É ser mulher e gostar de buceta?

Ou é ser mulher e gostar de mulher?

Ou é ser mulher e amar alguém que é mulher, tendo ou não buceta?

Deixo aqui estes questionamentos.

Só para pensarmos… Um pouquinho além dos conceitos heteronormativos, rotuladores, manipuladores e classicistas da sociedade em que vivemos…






Preliminares – Jogos de intimidades psicológicas e de atos corporais que promovem o aumento da excitação sexual entre as parceiras.

Carícias, beijos, estímulos nas zonas erógenas, massagem para relaxar e descontrair o corpo, jogos sensuais (assuntos de conotação sensuais e danças), jogos sexuais (strip-tease e fantasias eróticas), masturbação, etc antes do ato sexual, para que se alcance uma satisfação sexual mútua ou o orgasmo.

Psicologicamente, as preliminares diminuem a inibição e aumentam o conforto emocional. Fisicamente, ajudam no processo que leva à ereção do clitóris e promovem o relaxamento, a expansão e a lubrificação vaginal, permitindo que tudo seja feito de forma muito mais prazerosa.


Resumindo: preliminares não têm contra indicação, muito pelo contrário: altamente recomendáveis, porque… Ah, são tuuuuuuuudo de bom!


As preliminares são consideradas as precursoras dos orgasmos, mas não necessariamente as precursoras da preparação para a penetração, pois pode – e deve – acontecer atividade sexual sem penetração e que culmine num orgasmo.

Tudo bem, aqui a dúvida que não quer calar: onde exata e precisamente começa o sexo e as preliminares terminam?

Será que alguém pode me falar?

Confesso: tenho certa dificuldade em determinar isso. No caso de sexo com penetração (de qualquer tipo) é fácil. Mas e sem penetração?

Óbvio que na hora H, ninguém vai ficar pensando:

- Ok, agora as preliminares terminaram.

Mas… Não tem uma precisão científica, né? Ou tem?

Na dúvida, para que delimitar? Se a coisa flui tão bem que não se sabe onde as preliminares terminam e o sexo começa, daquele tipo que te faz perder o chão, a noção, a razão, etc e etc… Afe! Tá bom demais!

Apesar de ser a chave para obter uma relação de sucesso, pois são as preliminares que acendem a excitação que leva ao sexo, muitas vezes são banalizadas na relação.

É, tem quem ache perda de tempo. Por incrível que pareça!

Tem quem desconheça os prazeres e delícias além dos seios e dos órgãos genitais. Uma pena.

Ser criativa nas preliminares, abusar das mãos, olhares, língua, boca e pele. Dar-se tempo para ser acariciada e acariciar a parceira. Explorar, desvendar, decorar cada pedacinho dela. Beijar, roçar, se esfregar, rolar, mão naquilo, aquilo na mão, aquilo na coxa, aquilo no etc…

É fundamental! Faz toda a diferença.



Está aí nossa tarefa antes da próxima parte…




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