segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O DIA SEGUINTE



Acordou suada e esbaforida. O coração acelerado, dando pulos dentro do peito. Passou a mão pelos cabelos, tentando inutilmente retirar a lembrança que ainda parecia pregada às retinas.
Um pênis enorme, vindo em direção a ela, duro e erguido.
O mais horrível pesadelo que já havia tido.
Pior... E mais inquietante porque... Sequer despertava uma sensação inteiramente ruim.
Mas deveria.
Era preciso!
Egueu as cobertas, descobrindo que estava completamente nua. E sem saber como havia se despido ou sido despida.
Seria possível?
Forçou a mente, apertando as têmporas com os dedos...
Nada.
Nem um mísero resquício.
Como se a memória houvesse sido apagada, qual filme de ficção científica.
Pegou o travesseiro para esmagá-lo entre as duas mãos - numa tentativa infantil, mas bastante eficaz de extravasar a frustração que sentia – e deu um grito.
Debaixo dele a prova concreta: uma cueca. Supostamente esquecida.
Pulou para fora da cama com as mãos cobrindo a boca, a surpresa mantendo os olhos ampliados e a respiração desesperada e arredia.
Vestiu uma calcinha, uma camiseta e um short. Colocou a cabeça para fora da porta do quarto, tentando descobrir se Bia - a amiga com quem dividia o apê - estava ou havia saído.
Um alívio incomensurável ao perceber que se encontrava sozinha.
Precisava agir rápido. Eliminar a prova do crime.
Correu descalça, tropeçando até a cozinha.
Vasculhou as gavetas até finalmente encontrar o que queria.
Brandindo o garfo imenso de churrasco nas mãos, como um tridente de Netuno enfurecido, caminhou resolutamente até a cama, repetindo para si mesma:
- Calma... Respira... Devagar... É só uma cue...
Parou por aí.
Para conter a muito custo a ânsia de vômito que subia.
Precisou de uma concentração incrível para conseguir pescar a peça de roupa na pontinha do garfo - a repulsa mantendo o braço esticado para manter a maior distância possível – e jogá-la na privada pensando:
- Preciso me livrar disso!
Deu a descarga.
A peça infame desceu, mas a água subiu, regurgitada pelo cano entupido.
Imaginou o encanador tirando a causa do entupimento dali, com um sorriso lascivo...  Bia ao lado dele com um esgar de decepção no rosto, recriminando:
- Nunca esperaria isso de você. Tudo, menos isso.
Enquanto ela própria dizia:
- Juro que não sei o que aconteceu... Não sei o que houve! Eu nunca faria isso!
Quando deu por si, estava ajoelhada no chão frio do banheiro, as mãos unidas em súplica:
- Me perdoa! Não sei o que fiz!
Levou alguns minutos para entender que estava sozinha.
Correu de volta para o quarto, pegou o celular na mesinha de cabeceira e fez a única coisa que poderia: ligou para a analista. Com uma ansiedade extrema, esperou o toque cessar na secretária eletrônica.
Venceu sem esforço a repulsa que sentia da frieza da maquininha. A urgência era muito maior do que qualquer tipo de pudor ideológico, ou como a irmã definia:
- Frescura, Maurinha!
Deixou um recado sucinto:
- Alô? Ana Cecília? É Maura. Preciso que você me atenda hoje. É um caso de vida ou morte. Estou surtando aqui.
Desligou ainda incessantemente intranquila.
Ficou andando de um lado para o outro na cozinha.
Implorou mentalmente, numa prece que se repetia:
- Que ninguém fique sabendo! Que ninguém tenha visto!
Caso contrário, o que diria? Como explicaria?
Não havia desculpa para aquilo.
Seria execrada, afastada, banida.
Para sempre taxada, apontada como:
- Sapa fake! Aquela que dormiu com um carinha!
Estava assim, imaginando as caras de reprovação, as amigas lhe dando as costas, toda uma vida lésbica perdida, quando viu a porta abrir para dar passagem a Bia.
Jogou-se aos pés da amiga. Agarrada às pernas dela, aos prantos, gritou numa mea culpa arrependida:
- Perdão! Eu juro que não queria! Não sei o que deu em mim!
Bia ficou parada, absolutamente fria.
Olhou para Maura exatamente como esta havia imaginado: decepcionadíssima.
E disse:
- Tudo bem. Mas da próxima vez que você chegar bêbada em casa, como uma gata no cio, não conte comigo, nem com a minha cueca, muito menos com o meu brinquedinho!

 FIM



Aviso sobre direitos autorais: Copyright © 2010 por Diedra Roiz
Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfictions, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora. 

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26 comentários:

  1. Só uma coisa a dizer...

    K K K K K

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  2. Esse conto é seu? Eu já o tinha visto em algum outro blog, achei muito engraçado! hahahaha...
    Parabéns!

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  3. @Natália
    Oi, linda!
    É meu sim. Vc deve ter visto no abcLes ou no Um Outro Olhar, né não? Já tinha postado nesses dois sites, e aqui não, acredita? Tsc tsc...
    Mas será que vc poderia dar uma conferida pra mim se foi mesmo num desses dois que vc viu, please? Só pra garantir?
    BJIN!

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  4. Nossa muito legal eu quase me acabei d tanto rir parabéns queria

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  5. Nossa amei *-*
    e amo passar um tempo por aqui seu blog é lindo assim como os livros!

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  6. Diedra, vi foi no Um Outro Olhar mesmo, já conferi pra você!
    Parabéns sempre pelo trabalho, que é impecável e maravilhoso!
    Mais uma vez, parabéns também pelo livro!

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  7. Amei, mas não entendi se ela, pegou a amiga? ou só as coisas dela. kkkkkkk

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  8. kkkkkkkkkkkkkkk
    RI demais!!!!
    kkkkkkkkkkkkk

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  9. kkkkkkkkk como é gostoso dar risada...
    Adorei.

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  10. To super cansada... tive um dia horrível... só tu mesma pra me fazer rir... Louca de pedra...
    k kk k

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    1. É pra rir mesmo, Rê Cabrita...
      Só uma brincadeirinha... ;)
      bjin!

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  11. Respostas
    1. Humor Sagitariano, Chris... ;)
      kkkk
      bjin, linda!

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  12. Doido. Pow nunca tinha lido algo assim. kkkkkkkk

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    Respostas
    1. Jura, Valdirene?
      Vc não leu REGRA DE TRÊS?
      É o mesmo estilo.
      Se quiser conferir:
      http://regradetreis.blogspot.com.br/
      Mas é mais fácil clicar em cima do link aqui no site na coluna da direita em ROMANCES DA AUTORA, ok? ;)
      bjo suuuper mega giga, linda!

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  13. ai ai,Dileta...
    Bom encontrar vida inteligente e criativa na net.Bj

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  14. Eh incrível que exista textos seus que, escritos ha tanto tempo..... Fiquem escondidos nessa biblioteca gigante que a internet se tornou....adorei! Adoro ler suas histórias e perceber que ainda ha o que ler... Com relação ao que eu li....Kkkkk adorei! Surtou.... Previu...sofreu...buscou soluções.... Se envergonhou....PRA NADA....tudo culpa da azeitona no martini! Kkkkk...AiAi...quem nunca!

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  15. Eh incrível que exista textos seus que, escritos ha tanto tempo..... Fiquem escondidos nessa biblioteca gigante que a internet se tornou....adorei! Adoro ler suas histórias e perceber que ainda ha o que ler... Com relação ao que eu li....Kkkkk adorei! Surtou.... Previu...sofreu...buscou soluções.... Se envergonhou....PRA NADA....tudo culpa da azeitona no martini! Kkkkk...AiAi...quem nunca!

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