segunda-feira, 1 de março de 2010

E VIVA A DIFERENÇA!


Era uma vez...
Uma criança que descobre que não é igual às outras.
E tem que aprender a aceitar e lidar com essa diferença.
Com a dificuldade de adaptação, o sentimento de inadequação, todo o sofrimento, angústia e frustração que envolvem esta descoberta.
Parece familiar?
No entanto, não se trata do filme MINHA VIDA EM COR DE ROSA(Ma Vie en Rose) de 1997.
Estou falando de OGROLETO, espetáculo absolutamente fantástico, para crianças de 0 a 100 anos, em cartaz até 28 de Março no Rio de Janeiro.
(Maiores detalhes no site: 
Baseado no texto da canadense Suzanne Lebeau (até então inédito no Brasil), e dirigido por Karen Acioly, o espetáculo discute o medo e o desejo dentro do universo infantil com uma sensibilidade genial, singular, inesquecível.
No elenco, Mauricio Grecco e Carolina Kasting se superando, com um trabalho delicadíssimo, repleto de pequenas nuances, e ao mesmo tempo intenso, em sustenido.
Não torçam a cara, nem pensem:
- Teatro Infantil?
Deixem os preconceitos de lado, abram suas mentes.
Como afirmou Stanislavski:
“O teatro para crianças deve ser feito como o de adulto, só que melhor.”
Coisa que Karen Acioly consegue executar brilhantemente.
Aliás, não tenho como deixar de dizer: Karen me choca, por que... Pelos deuses! A cada espetáculo ela consegue inovar, quebrar paradigmas e estar sempre alguns passos à frente.
Visão!
Pura ousadia!
Vanguarda, indubitavelmente!
No caso de OGROLETO mais especificamente...
É imperdível mesmo!
A história?
OGOLETO, um menino de 6 anos que sempre viveu isolado com a mãe na floresta, ao ir pela primeira vez à escola, no contato com outras crianças e consigo mesmo em oposição à sociedade, percebe ser diferente.
Do tamanho e força de um adulto em contraponto a mente e ao coração inocentes, à atração irresistível que sente pela cor vermelha e por sangue (metáfora que por si só, é passível de tantas interpretações, que renderia uma tese de doutorado, sequer entrarei no mérito), passando pela descoberta de ser filho de um ogro, é jogado  num tortuoso desafio: o de encontrar-se, e definir-se, a despeito das duas forças antagônicas que dentro dele se enfrentam. No limiar entre humano e fera.
 
Mauricio Grecco (Ogroleto) e Carolina Kasting (Mãe)
Foto: Divulgação
E é exatamente desse conflito entre razão e instinto que texto e direção se valem para abordar questões tão atuais quanto socialização, diversidade inclusiva, dificuldade de aceitação das diferenças, descoberta e o aprender a lidar com os desejos e com a própria natureza.
O mais surpreendente nem é a autora e a diretora, contrariando o senso comum, apostarem na capacidade de compreensão do público infantil em relação a sentimentos, conflitos e temores profundos, mas o fato da identificação, independente da idade, ser plena.
Somos todos Ogroletos.
Que mais?
Poderia dizer que a iluminação, o cenário, o trabalho em si é hipnotizante.
Que observar as reações da platéia mirim é uma atração à parte.
Porém...
Vão conferir. Vejam por si mesmas.
Mais sobre o espetáculo eu não vou dizer, para não estragar a surpresa.
De resto...
Vocês sabem que não me contenho...
Assim como Suzanne Lebeau  e Karen Acioly, precisamos começar a pensar a criança não como a possibilidade do adulto que se tornará, mas encará-la como um ser humano que, com suas próprias características, influencia e é influenciado pela história e pelo contexto social em que vive. Criar desde cedo cidadãos questionadores e atuantes na sociedade em que vivemos.
Por isso, quando pensarmos:
- Não beijo minha mulher ou namorada na frente de crianças...
Que tal lembrarmos que:
Os gays e as lésbicas de amanhã são crianças atualmente.
E futuros homofóbicos (Homossexuais homofóbicos, inclusive. A tão falada homofobia internalizada, eita!) virão a se formar ou não.
Com relação a isso, nossa postura faz a diferença.
Não seria muito mais fácil se descobrir, se aceitar e viver se desde a infância, beijos entre pessoas de sexos diferentes não fossem a única referência em sua mente?
Mas isso é assunto para minha coluna no PL desta 5ª feira...
Até lá, um último pensamento, que é absolutamente Ogroleto:

 “[...]Eu entendo por paixão , a capacidade de resistência; a intransigência em negar a hipocrisia sob qualquer forma em que se apresente; a vontade de agir e ser o que se é; a consciência do dever que temos, enquanto seres humanos, de mudar o mundo para melhor, sem nos contentar com as medíocres mudanças aparentes; a coragem de dizer não, sobretudo quando seria mais cômodo dizer sim; a coragem de não fazer como os outros, mesmo que seja preciso pagar por isso.” [...] (Gianni Rodari.)




Aviso sobre direitos autorais: Copyright © 2010 por Diedra Roiz
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4 comentários:

  1. Di,

    Seu blog tá lindo!!!

    beijos

    Meeeel rsrs

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  2. Puxa, fiquei com vontade de assistir esta peça.

    Acho engraçado que tudo o que é feito para crianças parece ser mais profundo do que para adultos. Me lembro da série Anos Incríveis, o Kevin com 11 anos tinha pensamentos incríveis, que me faziam pensar.

    Valeu por divulgar, espero que as felizardas cariocas vão conferir o/

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  3. Mel!!!
    Amigaaaaaaaaaaaa
    Saudade!!!
    Estudando muito, né?
    Brigadíssimo, linda!
    Vamos ver se combinamos algo?
    BJ ultra gigante!


    Carlinha,
    Depende muito de quem faz, né?
    Mas com certeza, trabalhar para e com crianças é imensamente gratificante. E obviamente, a ludicidade extermina a auto censura e libera o inconsciente, por isso talvez as metafóras sejam tão mais reincidentes.
    Sou suspeita...
    (ATORON...kkk)
    BJ hiper gigante!

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  4. Como faz pra assistir a essa peça?!
    Quero aqui no ES já!
    E sou super a favor de um projeto "Lescontos de fadas", hein?!

    beijos e borboleteios!
    Bru

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