quinta-feira, 4 de março de 2010

ESPELHO, ESPELHO MEU



Espelho, espelho meu...
E se a homofóbic@ sou eu?


Não adianta espernear, negar, discordar.

Homofobia faz parte da cultura, da criação, da formação.


É o sistema.

Você deve estar se revoltando. Talvez até protestando:

- Homofóbica, eu?!


Infelizmente, a homofobia é um câncer. Está dentro. Fazendo com que as células se deformem, evidenciando e espalhando a doença.


Presente em todos os sujeitos:

Eu sou, tu és, el@ é

Nós somos, vós sois, el@s são

Homofóbic@s.

Lésbicas ou não.

É inerente.

Ainda não se convenceu?

Pensa bem:

Já trocou um pronome? (Ele ao invés de ela?)

Apresentou a namorada como amiga?

Disse estar solteira para evitar questionamentos?

Deu a mão debaixo da mesa?



Virou a cara, fazendo com que um beijo nos lábios fosse no rosto ao ver uma criança,velhinha, a própria mãe ou coisa parecida?


Beijou escondida no banheiro?

Deixou de abrir um site em público por ter conteúdo lésbico?

Pensou, mesmo de brincadeira, coisas do tipo:

- Tinha que ser viado!

- Que machorra!

Sorriu feliz quando te disseram:

- Nem parece…

Isso é um elogio?

Pense bem!



“O fato de crescer e viver sob todo tipo de injúria faz com que exista um “anti-homossexual no fundo de todo homossexual”, como disse Proust.”
(Jean Wyllys – “As Cores da Casa”- http://bloglog.globo.com/jeanwyllys/)



Homofobia internalizada, baby.

Leia:

Difícil, quase impossível não se identificar com alguns itens.

Por quê?

“Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove as seis.
Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês [...]”


(“Geração Coca-Cola”- Legião Urbana – Renato Russo / Fê Lemos)



Já viram filme de amor com pessoas do mesmo sexo na sessão da tarde, em plena TV aberta? Matéria sobre sexo, beijo ou casamento no Fantástico onde não se fale só de “ela e ele”? Cartão de dia das NamoradAS, sem ser em site gay?


Lavagem cerebral poderosa, cuidadosamente feita.

O fazer com que seja escuso, escondido, como se fosse ilícito.

Exclusão que diminui, enfraquece, gera todo tipo de culpa, medo, incerteza.



Ser um fantasma, um espectro, uma sombra que não tem direitos nem voz ativa pode ser uma violência tão grande ou maior do que ser fisicamente agredida.


Isso todas nós sabemos.

Diariamente:

- Prefiro uma filha morta a uma filha lésbica.

- Você fica tão mais linda de vestido…

- Sapatão, mulher macho, caminhoneira.

- Lesbianismo é pecado. Aberração. Contra a natureza.

Sequer entrarei no mérito da religião.



Crescemos embebid@s, nadando e bebendo da fonte da homofobia.



Natural internalizarmos esse tipo de pensamento, mesmo que seja no recanto mais profundo, escondido e enrustido do nosso ser.



Com isso, a auto aceitação às vezes se torna extremamente dolorosa, árdua, arrastada.


Mostrar-se e assumir-se?

Pior ainda.

Aquele momento em que seu armário clama:

- Ponha-se daqui pra fora!



E você ali sufocando, respirando com muito sacrifício por uma frestinha ínfima, ainda negocia:


- Só mais um pouquinho…

Enquanto o inconsciente gritar:

“Protect me from what I want (Proteja-me do que eu quero)
Protect me from what I want  (Proteja-me do que eu quero)
Protect me from what I want  (Proteja-me do que eu quero)”
(Protège Moi – Placebo)

Fica difícil.

Tem um site muito interessante:

São 30 Idéias para ajudar a causa LGBT do seu jeito.

Recomendo!


postado originalmente em 04 de Março de 2010 no site Parada Lésbica na extinta coluna Dizendo Ao Que Vim de Diedra Roiz.




Aviso sobre direitos autorais: Copyright © 2010 por Diedra Roiz
Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfictions, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora. 



 

5 comentários:

  1. Sensacional!
    Não encontrei palavra melhor para adjetivar seu texto.
    Confesso q nunca tinha ouvido falar sobre homofobia internalizada, apesar de reconhecer o contexto em que vivemos.
    É, o mundo vende a união hétero como o sagrado, como se outros relacionamentos pudessem pôr em risco a humanidade - ó, santa ignorância!
    E eu conheço homossexuais que são assim mesmo! E não tem outro jeito de viver a homossexualidade e se aceitar do que vivendo!
    Só não acho que seja uma escolha. Não concordo nem com o termo orientação. É intrínseco e pronto. Já nascemos assim.
    Amei o post, Di...
    E sei q ainda há mto o q transformar (aquariana revolucionária de plantão dá nisso)
    beeeeeeijos e borboleteios^^

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  2. Eu já havia começado a me policiar quanto a esses sentimentos homofóbicos que me foram passados desde sempre. Há um tempo já não aceito "brincadeirinhas e comentários" infames!

    se nós mesmo não nos respeitarmos, quem irá respeitar?

    O blog já estava nos meu "favoritos"!!
    Ahhhh!!! adorei encontrar com a Isabela e a Fernanda no Abcles....essa foi uma das primeiras histórias que eu li, ainda no FatorX.

    Até mais, bjos
    Stellinha

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  3. Difícil a gente se libertar dos próprios preconceitos, hein?
    É cultural. Está na raiz.
    Mas a gente tenta.
    Xêro!

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  4. Visceral!!!
    Como sempre Diedra, você com a alma totalmente escancarada e textos que nos remetem a reflexão, ao autoconhecimento. Não tem como ficar indiferente ao lermos algo tão profundo e realista.

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  5. ehhh.... verdades às vezes soam como tapa na cara... e no fim...são só verdades...tudo verdade...sempre verdade...... verdades do dia a dia... do hábito... no reflexo... na premeditação... a verdade salta do corpo o tempo inteiro... mesmo sem perceber...mesmo não querendo.... é o que eu sempre digo... a pessoa mais dificil de se conviver....é com vc mesmo!

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