domingo, 14 de março de 2010

ACONTECEU NO BARRA EXPRESSO

Continuo firme em meu propósito de apresentar minha gaúcha ao Rio de Janeiro.
Ir ao Shopping Center não é, nunca foi, nem nunca vai ser meu ideal de passeio, porém... De vez em quando precisamos comprar coisas, fazer o quê?
Sábado à tarde, resolvemos ir ao Barra Shopping via metrô integração.
E lá fomos nós: Barra Expresso, com o ar condicionado não muito bom.
Foi no meio do elevado que tudo começou.
Vinda lá do fundo do ônibus, surgida do nada, uma mulher que - não muito educadamente - reclamou com o trocador:
- O ar não está funcionando lá atrás.
O trocador se levantou, falou com o motorista.
O motorista verificou que realmente, o ar havia se desligado. Sem questionar como nem porque, ele o acionou.
Na mesma hora, um barulho estranho vindo sabe-se lá de onde.
Impossível definir o que era, uma vez que... Uma histeria total se instaurou.
Sério.
A maior parte das mulheres simplesmente surtou.
(Seria a histeria uma questão de gênero?)
Umas gritavam:
- Estourou o pneu!
Outras:
- Estamos sem freio!
- Jogaram algo no ônibus!
E de:
- Vai pegar fogo!
Foi fácil passar para:
- Vamos todos morrer!
Algumas já puxando o motorista, tipo quem se afoga e agarra no pescoço do salva-vidas e morrem ambos, sabem como?
Então...
O motorista foi obrigado a parar o ônibus no meio de uma pista sem acostamento, numa ponte, evitando com sucesso um acidente, e em vão acalmar os ânimos, explicando:
- Foi só a correia do ar condicionado que arrebentou, minha gente!
Foi tudo muito rápido. Realmente.
Mas já repararam que em geral, em situações limite, tudo parece estar em câmera lenta?
Deu tempo. Ainda consegui pensar:
- O pneu não furou. O freio ta ok. Ninguém ta incendiando o ônibus. Estamos parados, igual no filme Premonição 2, batida, o ônibus despencando lá embaixo, sendo engolido  pelo mar, a água entrando, e...
Fiz NAM MYOHO RENGUE KYO mentalmente, e o roteiro de terror se dissipou.
Virei para minha gaúcha e perguntei:
- Tudo bem?
Como resposta um:
- Tudo.
Entre dois sorrisos tensos: o dela e o meu.
A mulher.
Aquela mesma, gatilho de toda a situação, porque...
Se não houvesse reclamado do ar...
Aparentemente, não estaríamos ali, mas...
Sabe-se lá, né?
Quem pode dizer?
Pois então...
A mulher “o ar não está funcionando lá atrás” começou a gritar estridentemente:
- Abre essa porta! Abre! Eu quero descer!
O motorista obedeceu.
Ela saiu do ônibus e desapareceu.
Nisso a maioria já gritava:
- Fecha a porta! Vamos embora, motorista!
Um homem berrou, irritado ao extremo:
- Calem a boca todos vocês!
Silêncio.
Pelos deuses!
Como é fácil um climinha O DESTINO DO POSEIDON se estabelecer, hein?
Viagens de auto tortura e previsões de acontecimentos sinistros à parte, a realidade era: um ônibus parado, devido à alteração exacerbada dos passageiros.
Somente.
É, eu sei.
O ônibus queimado na Cidade de Deus aumentou o pânico carioca ao extremo.
O motorista hesitante, sem querer deixar a mulher fujona no meio do elevado, por si mesma. Os passageiros alterados, brigando, discutindo e opinando ardentemente. Cada um querendo expor sua própria vontade e pensamento. Coletividade zero.
Até que a informação veio:
- A mulher que desceu pediu carona, um carro parou e deu.
O motorista tentou fazer o ônibus pegar inutilmente.
Pane no sistema elétrico.
Foi o declarado por ele, solenemente.
A fiscal que viajava conosco tomou para si a missão de organizar o alvoroço.
Foi para trás do ônibus e ficou sinalizando para os carros, o trânsito imediatamente engarrafado com o bloqueio de uma das duas únicas pistas...
Parte dos passageiros também desceu – inclusive uma mulher muito parecida com Blanche DuBois: agarrada a uma mala enorme, de vestido florido leve, salto alto e óculos redondos gigantescos, que ficava repetindo baixo, sem ser ouvida, como que para si mesma:
- É perigoso parar aqui. O motorista não deveria ter parado. Não mesmo.
A fiscal parou um ônibus normal (175), muitos entraram nele, e pagaram outra passagem correndo.
Chegou um policial de moto, com aquele colete que brilha, ficou fazendo sinais, maestro regendo a lentidão do tráfego crescente.
Lá se foi Blanche. Arrastando a grande mala atrás dela apressadamente.
Um grupo de DreadLocks sentou-se no chão, em roda atrás do ônibus e começou a preparar sanduíches.
Pão de forma, amizade, alface, despreocupação, presunto, irreverência e queijo.
Seres humanos...
Sempre surpreendentes.
Eu, como sempre pensando que eu não bato bem.
É...
Quem me conhece sabe...
Igual ao dia da enchente: um conto se engendrando em minha mente.
Em breve, ok?
Prometo!
Por fim, o Barra Expresso seguinte chegou, com o ar condicionado funcionando perfeitamente, subimos nele e...
The End?
Do episódio sim.
Da reflexão, apenas o começo.
Do quanto a maior parte dos seres humanos está sem noção de qualquer coisa além do próprio umbigo e... Como têm medo!
De tudo, de todos, talvez até de si mesmos.
Compreensível.
Num momento destes, a verdade se mostra: pessoa ou peçonha?
Quem você é, o que pensa, o que realmente te importa?
Como encara o mundo, os obstáculos, a coletividade, os outros?
Na hora em que o bicho pega.
Na hora em que o couro come.
Na hora de lutar contra injustiças.
De lutar por direitos.
De se tornar visível.
Você fica, cospe, grita, ridiculariza, critica, lucra, soma ou foge?
Não me entendam mal.
Longe de mim apontar dedos, julgar, muito menos condenar.
Afinal...
Não sou nada melhor.
Fiquei até o final sim.
Mas só por minha obsessão egoísta de saber como terminaria a história.

 
  Foto by Diedra Roiz

7 comentários:

  1. Olha o povo anda com tanto medo que um barulho qualquer causa pânico geral.
    Imagina se a tal mulher “o ar ...”, ao descer do ônibus tivesse sido atropelada? (Não estou sendo dramática, mas sim realista, já que o local era uma via expressa). Imagina que a culpa seria do motorista, que abriu a porta para ela descer (a pedido dela) e que a essas alturas estaria sendo chamado de mosntrorista.
    O fim da historia... isso sempre interessa e sendo assim, por varias vezes passei aperto na longa avenida Brasil e fiquei ate o final... só pra ver no que ia dar, muitas vezes saía dando risada das pessoas que se descontrolavam, parecendo um bando de malucos. Eu? Ria, né... afinal de que adiantaria me alterar?!?!?

    ResponderExcluir
  2. Engraçado ou trágico, sei lá ... rsrs
    mas, uma histótia real( devidamente ilustrada ) ... parabéns !!
    Fiquei aqui pensando enquanto lia o seu "relato", uma história comum que poderia ter acontecido com qq um de nós, cariocas, mas que com sua narração parece um conto, tão gostosa é a leitura... de novo, parabéns!!!

    ResponderExcluir
  3. Gente... nunca pensei que pegando o Barra Expresso eu poderia acabar numa confusão dessas! Que povo desesperado...

    ResponderExcluir
  4. Sempre tem pessoas histéricas que dramatizam tudo...um bom exemplo é quando os pais(nem todos) descobrem que o filho/a é gay...afff quanto drama,acham que o filho/a é estéril e não vai ter filhos,que vai sair ficando e transando com todo mundo,e por ae vai,várias dramatizações...tem muita gente que nem faz uma tempestade em copo d'água...já afoga o coitado do copo logo duma vez..o certo seria procurar manter a paciencia nessas situações,pelo menos tentar...bjsss Di seu texto tá ótimo(eu sempre repito que seus textos são ótimos,mas é que eles são mesmo!!!)

    ResponderExcluir
  5. Oi Di!...

    Nossa... essas aventuras fazem parte do meu dia-a-dia. Me vi em alguma poltrona desse ônibus. Rsrsrs

    Todo dia enfrento um busão lotado por 54min até o trabalho!

    Se não fosse o mp5 tava perdida!

    Mas sempre tem uma estória nova! A ultima ficamos "no prego" numa avenida pouco iluminada, em um bairro não muito "amistoso", às 22h e eu suando frio pq tava com o notebook na mochila! o.O

    Coisas da vida....

    Vou vir mais vezes por aqui viu?

    Bjus!

    ResponderExcluir
  6. "Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas não pareçam o que são."

    Na hora do medo (muito justificável nos dias de hoje, quando ônibus são queimados com gente dentro e pais e filhos juntos são assassinados dentro de casa) é "cada um por si e Deus contra todos", como diriam os Titãs. Está certo ? Não, mas o que é certo ultimamente ?

    Agora já é de praxe vc tirar contos dessas passagens pitorescas (Não esquenta, vc bate bem, sim, ao contrário da doida que, além de causar todo o tumulto, ainda desceu do expresso e pegou carona (????). E deve ser do teatro essa coisa de achar personagens famosos nas pessoas comuns, né ?

    Como sempre, uma história que ficou interessantíssima sob o seu prisma.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  7. Achei o post espirituoso, em algumas partes até ri alto AUHSUAHSUA .Com vc narrando qualquer coisa fica interessante .Diva OK

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, sua opinião é muito importante!